Mass Effect 3: a novela do avesso

Acompanhando o bafafá de Mass Effect 3 nesta quarta-feira, após a declaração completamente imparcial (e insossa) do presidente da BioWare, Ray Muzyka, em relação ao rant dos fãs sobre o final da saga, achei que valia a pena escrever este post.
Li tweets defendendo a BioWare, defendendo os fãs ou cagando para toda a situação (euzinha). Embora o assunto já esteja enchendo o saco, há algumas coisas interessantes a se concluir com tudo isso:
Mass Effect com seu apego à trama, cheia de personagens e situações de fato bastante interessantes para um videogame, conseguiu legitimar a ideia tão difundida de que nós, como jogadores, somos também os co-autores de uma história de videogame, ainda que sua narrativa apenas ofereça a sensação, a ilusão de liberade. Sabemos que se trata de uma série de eventos multilineares pré-definidos, mas na magia do jogo, são as nossas decisões, é a nossa história e é o nosso Shepard.
A BioWare sempre foi muito próxima de sua comunidade, dando ouvidos aos seus fãs mais ardorosos e captando o máximo de feedback durante o desenvolvimento das duas continuações (e provavelmente outros produtos relacionados à série). Desta forma, ao tirar o total controle da série das mãos dos criadores e permitir a participação, ainda que limitada, dos fãs tão apaixonados, a BioWare transformou Mass Effect numa espécie de serviço, a fim de agradar o maior número de jogadores possível.
Apesar disso, a trama, o elemento de Mass Effect pelo qual os fãs mais se importam, sempre esteve muito bem guardada (ou não) e nunca contou com a participação dos fãs em seu desenvolvimento (não até onde eu sei).
Pensando bem, Mass Effect é tipo uma novela do avesso. Como todo teledramaturgo bem entende, novela é um produto comercial de entretenimento, que precisa dar audiência acima de tudo e, para tanto, agradar seus consumidores. Só que diferentemente de uma novela, em que os produtores possuem um feedback diário dos índices de audiência e pesquisas de opinião, a BioWare não tem como medir o que pode agradar ou não até que o jogo saia. E, bizarramente, ao mesmo tempo em que moldam o jogo conforme o gosto popular, não fazem o mesmo com a história.
Uma alternativa seria adotar aquele velho esquema dos produtores de cinema blockbuster, que, com medo de arriscar, abrem sessões específicas de teste e, dependendo da reação dos espectadores com o desfecho, eles mudam para agradar o público. É aquela coisa: foda-se a arte, nós queremos agradar, fazer sucesso, ganhar dinheiro. Mas como fazer isso com videogame e não correr o risco do jogo vazar e foder todo o esquema?
Isso é uma coisa.
Por outro lado, se eu fosse um fã, tivesse dedicado tanta atenção, dinheiro e tempo a uma série, inclusive gasto em fóruns, wikis, artigos e notícias sobre um jogo que ainda nem existia (resultado de uma campanha de marketing pesada da EA e BioWare para aumentar a expectativa pelo produto – ou seja, hype), eu me daria sim o direito de me manifestar caso o desfecho da jornada pela qual dediquei parte da minha vida não estivesse à altura daquela que eu imaginava.
Isso é apenas mais um sinal de que Mass Effect se tornou um serviço (E um serviço não muito satisfatório, pelo visto), não só do ponto de vista dos criadores, mas dos próprios jogadores. Paguei, não gostei, vou reclamar no Twitter, no Procon e no ReclameAqui.
E ainda tem gente querendo falar de arte no meio de tudo isso. Por favor.
Só não entendo como a BioWare não previu isso antes – ou talvez ela já esperava o rant para se aproveitar da situação para anunciar DLCs com finais “compráveis” - não duvido nada.
Enfim, esses são apenas alguns dos motivos pelos quais eu, que tinha um carinho absoluto pelo primeiro jogo da série, passei a não dar muita bola para Mass Effect. E não, eu não joguei o terceiro jogo, não sei que caralhos acontece com o Shepard - deve ter morrido, provavelmente, mas nem ligo, porque vão ressuscitá-lo DE NOVO!
E não, eu não assisto novela.
Abaixo, alguns tweets aleatórios que fui coletando ao longo do dia sobre o assunto (adoro deboche):
@granulac
hey nerds, consuming media doesn’t instantly involve you in a democratic process. I’m sorry IP owners briefly tried to convince you it did.
@mattbodega
I think that anyone who wants video games to be taken seriously is going to have a much harder time arguing that point after today.
@ThaisWeiller
cês reclama, mas no cartão tá lá o slogan: Bioware: We make some games, we suck some cocks.
@Tiddlecub
Remember: something doesn’t stop being art just because you don’t like it; great art doesn’t need your approval.
@BenKuchera
Here’s the thing no one wants to admit: most of the people who played Mass Effect 3 have no idea there’s a controversy at all.
@WillSmith
The only person who wins if Bioware changes the Mass Effect 3 ending is Roger Ebert.
via @bcanato

