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Seis possíveis razões pelas quais os jogos ainda são péssimos contadores de histórias

Você já parou para pensar que a maioria das boas histórias contadas pelos jogos só são boas se comparadas a outros jogos? Que se a mesma história fosse contada no cinema ou em um livro, provavelmente teríamos um filme ou livro muito ruim? Eu sinceramente espero que sim.

Todos nós sabemos que o que faz um jogo bom são suas mecânicas, mas isso não quer dizer, obviamente, que suas histórias, cenários e personagens são dispensáveis. São eles que determinam o contexto de um jogo (pelo menos de um que envolva narrativa) e toda a experiência que envolve o jogador. Um adventure, que é mais narrativa do que mecânica, por exemplo, precisa de uma boa história para ser considerado um bom jogo.

Mas por que com tantos avanços na nossa indústria e com uma linguagem já bastante sólida, cada vez mais compreendida e estudada, ainda existe tanta dificuldade para contar uma boa história através de um jogo? Talvez alguns dos motivos mais óbvios sejam:

1. Jogos são simulação e não narrativa

Jogos podem conter narrativa, mas não dependem dela pra existir. O que caracteriza mesmo a linguagem dos jogos é a interação e a necessidade do jogador de tomar decisões, agir e pensar. Assim como na vida real, as possibilidades são praticamente infinitas, só depende de você. Uma partida de Super Mario Bros. nunca é idêntica à outra.

Como apresentar uma história em que o jogador não é apenas o espectador, mas também o ator e o co-autor? Como guiar o jogador por um roteiro pré-definido da narrativa tradicional, mantendo a sensação de controle que ele tanto preza? Como justificar as ações possíveis do jogador dentro da história? Se tais questões parecem não ter resposta, é por que estamos lidando com uma linguagem recente demais, que ainda está ganhando forma. Ninguém sabe, de fato, como contar uma boa história utilizando esta linguagem, talvez por que:

2. Jogos nasceram da técnica e da lógica

Convenhamos, programadores não são artistas ou contadores de histórias natos. Muito da base do videogame foi fundada por programadores jovens cabeludos, que embora fossem capazes de criar sistemas complexos de interação, não tinham muita noção ou sequer sabiam como contar histórias.

Se por um lado eles não sabiam criar uma trama bem elaborada, eles podiam muito bem criar bonecos 2D com um punhado de pixels que corriam convincentemente e atiravam em barris explosivos. Aquilo impressionava, divertia e era suficiente. Assim, os jogos continuaram seguindo essa tendência por décadas, criando pretextos para justificar a ação dos personagens em vez de histórias, o que levou a:

3. Desenvolvedores e jogadores predominantemente homens

Nossos protagonistas são sempre iguais (homens brancos, pouco cabelo, grandes armas), nossos objetivos nunca mudam (salvar, matar, destruir) e nossas ações tampouco (correr, pular, atirar, socar). Isso só pode ser reflexo de uma indústria guiada por homens (convenhamos, mulheres não gostam muito dessas coisas) e por dinheiro, o que significa que:

4. Somos escravos da nossa própria indústria.

Jogos precisam sempre ser baseados em ideias já existentes para garantir o retorno financeiro dos investidores. Os executivos e engravatados é quem mandam. Estamos cada vez mais presos no mesmo ciclo das continuações e das fórmulas de sucesso que está acabando com Hollywood. E isso é culpa minha e sua porque:

5. Somos fanboys conformados (bem, eu pelo menos tento não ser)

Sabemos que os jogos estão perpetuando as mesmas ideias, histórias e mecânicas ano após ano e, mesmo assim, continuamos a comprar, elogiar e incentivar tais experiências, como se videogames fossem apenas isso mesmo. Será que…

6. Somos bitolados demais?

Pergunte a um gamer quais são suas paixões e torça para ele não dizer que sua peça de arte favorita é seu action figure do Sub-Zero, que O Guia do Mochileiro das Galáxias é a melhor obra literária que existe, que Star Wars é o maior marco cinematográfico da história. Não é à toa que somos chamados de nerds.

Ninguém é obrigado a gostar de Foucault, conhecer as obras de Gabriel Garcia Márquez ou identificar todos os quadros de Renoir. Porém, quando você se envolve com outras formas de arte, você constrói um olhar crítico muito mais apurado para saber que seu videogame ainda não é a melhor invenção da história e que um bom enredo nem sempre envolve um soldado careca com cicatrizes no rosto que acaba com milhares de vidas para salvar o mundo.

    • #artigo
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  1. leandraher90 likes this
  2. moon-shoes said: Há jogos e jogos, amigo. Assim como há filmes e filmes. É muito bobo querer comparar os dois.
  3. andojogando posted this

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Designer por formação, jornalista por profissão e professor por ocasião. Ando Jogando é um blog com um conteúdo variado, através do qual exponho também minha visão sobre diversos aspectos dos games e da cultura que os cerca.

Você pode acompanhar meu trabalho no Arena, o site de games do iG.

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