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Sobre Call of Duty, cultura de armas e militarismo nos games

Desde, pelo menos, 2007, o período mais movimentado do ano para os games vem sendo dominado por uma série que, ano após ano, se mantém no topo, imbatível. Call of Duty, que chegou à sua oitava versão (se contarmos apenas os jogos principais) no dia 8 de novembro, com o terceiro episódio de Modern Warfare, é um gigante que consegue invadir todo final de ano milhões de casas dos EUA e do resto do mundo, quase que como uma tradição videogamística.

Mas por que Call of Duty, que em sua atual fase trata de uma guerra contemporânea calcada na realidade, é tão celebrado, a ponto de se tornar um dos produto de entretenimento mais rentáveis da atualidade, em uma indústria que já movimenta mais dinheiro do que qualquer outra forma de entretenimento?

Call of Duty: Modern Warfare distribui a ação em diferentes situações, vividas por diferentes personagens do exército norte-americano ou aliados de outros países. Ainda que não deixe de transmitir muito do valor e dos ideais norte-americanos (lugar-comum em produções “ianques” sobre guerra), seu enredo (ou o produto como um todo) não chega a se aprofundar nas questões políticas, sociais ou ideológicas de um conflito internacional, limitando-se em representar operações de guerra com toda a liberdade “michaelbayniana” da ficção.

Infiltrar-se em bases inimigas, desativar armas nucleares e localizar líderes rivais são tarefas tensas, divertidas e emocionantes, em que cada tiro disparado contra a cabeça de um oponente funciona como uma pequena injeção de adrenalina, que impulsiona o jogador até seu objetivo. Assim, como história de guerra, Call of Duty é inofensível (além de confusa), optando pela superficialidade da ação às reais engrenagens de uma guerra verdadeira – um dos motivos para, ao meu ver, as sequências da garotinha assassinada e do massacre no aeroporto penderem mais para o sensacionalismo.

Ao se prender na ação frenética, no espetáculo, o jogo não se preocupa em mostrar os efeitos colaterais de uma guerra. As violentas ações militares, invasões e assassinatos ganham uma trilha sonora dramática e impactante, que enfatizam o espírito de heroísmo e de irmandade entre os soldados. Em outras palavras, a guerra se torna bonita.

Sempre existe o argumento de que que nada daquilo é real, que os milhares de soldados russos programados para morrer sequer são atores. “É apenas videogame, não leve tão à sério”, dizem. Eu discordo.


Mod de Counter Strike: flores em vez de armas

Primeiro, por que o jogo está contido em uma sociedade e ele simula a realidade. Por mais que tudo não se passe de um faz de conta virtual, a guerra é bem reproduzida - novamente, com toda a liberdade de gameplay e ficção. Entendemos, no mundo real, o significado de um headshot. Ainda que os jogos de guerra sempre tenham entretido mulheres e, principalmente, homens de todas as classes, a exemplo do Xadrez, Call of Duty marca uma transição de foco da guerra tática e estratégica para a guerra como um regozijante playground pirotécnico. Na modalidade multiplayer, guerra vira esporte.

Segundo, por que lutamos para que a grande mídia e o resto do mundo reconheça os jogos como expressão artística, aí, quando apontam para nós, dizemos para não levar os videogames à sério. Aonde queremos chegar?

Cada vez mais, nos gabamos da capacidade narrativa, artística e interativa dos jogos. No entanto, quando comparamos Call of Duty e seus jogos de guerra tão adorados com obras igualmente consagradas do cinema sobre o mesmo tema, como O Resgate do Soldado Ryan ou Guerra ao Terror, ou dos quadrinhos, como Gen: Pés Descalços ou Maus, vemos claramente que Call of Duty não se passa de um produto de massa, entretenimento.

Talvez a comparação seja um pouco injusta, uma vez que, ao contrário das obras citadas, Call of Duty transfira o foco da narrativa, capaz de fazer refletir e emocionar (principalmente por serem baseadas em fatos trágicos), à ação pura e intensa, como um orgasmo: um prazer imenso, porém instantâneo e passageiro.

Mas não acho que se trata de intransigência minha querer conteúdo inteligente sobre guerra em um blockbuster. Metal Gear Solid, comparativamente, aborda a guerra de forma muito mais madura, humana e sensível, ainda que se aproveitando de um realismo fantástico. Talvez o fato de ser uma obra do Japão, cujo povo já sentiu na pele, literalmente, a dor da guerra, justifique alguma coisa.

Documentário First Person Shooter - Character Trailer de Piers Sanderson

Mesmo como entretenimento, não podemos deixar de considerar o peso de Call of Duty na cultura popular norte-americana, onde ele parece ser uma peça-chave na preservação da forte cultura de armas e de guerra que lá existe. Não por coincidência, boa parte do público que consome Call of Duty são os jovens (adolescentes com menos de 17 anos, idade mínima recomendada pela classificação etária americana para o jogo, diga-se de passagem) que cresceram acostumados com a invasão de tropas militares de seu país em território iraquiano e afegão.

Seria o jogo apenas reflexo dessa realidade de guerra pós-11 de setembro americana, acostumada com a soberania militar e com o medo do terrorismo? E mesmo se for, não estaria ele ajudando a condicionar esses jovens a aceitar a guerra como algo natural e inevitável? Não seria o absolutamente popular e bem sucedido Call of Duty uma forma do exército indiretamente seduzir esses jovens e, consequentemente, atraí-los para o alistamento militar que, vale dizer, não é obrigatório nos EUA?

Não é de hoje que sabemos que os videogames são amplamente utilizados pelo exército norte-americano, seja para simular operações militares em ambientes virtuais e “preparar” seus soldados para situações reais, seja para criar um elo com o adolescente, que pode jogar America’s Army gratuitamente, um jogo abertamente utilizado como “isca” para o alistamento militar.

O ápice veio em 2008, com a inauguração do Army Experience Center, um enorme centro de entretenimento tecnológico instalado em um shopping na Philadelphia, usado para promover a guerra, os produtos America’s Army e, consequentemente, o alistamento militar entre os jovens. Dois anos e dezenas de manifestações depois, foi fechado.


Protestos contra o Army Experience: “Guerra não é um jogo”

E por se associar a estes mesmos valores, da guerra como esporte, diversão e produto de consumo, Call of Duty está inevitavelmente relacionado a essa cultura de guerra e ao militarismo. A única diferença é que, ao contrário de America’s Army, o jogo da Activision não traz o logotipo do exército norte-americano estampado na caixinha e nem é bancado pelo governo – além de ser estupidamente superior. A chuva de anúncios do exército, marinha e aeronáutica norte-americanos em sites de games neste período do ano não são, afinal, pura coincidência.

Eu, pessoalmente, me incomodo de perceber o quanto a cultura de videogame e a cultura militar se confundem. Táticas de guerra, nomes de armas e códigos de operações militares são comuns ao vocabulário não apenas desses jovens jogadores norte-americanos que são fisgados pela isca militar, com a ideia de uma guerra glamurizada, mas aos jogadores em geral. Atirar, matar e explodir continuam sendo as ações mais comuns realizadas virtualmente por quem consome videogame e, consequentemente, os jogos de tiro estão entre os mais populares.

Não estou dizendo que o culpado disso tudo é Call of Duty, porém, não há dúvidas que, comercialmente, Call of Duty é um dos produtos mais importantes de nossa indústria, e me incomoda saber o quão ele é responsável por perpetuar tais ideias. Ou seríamos nós mesmos os perpetuadores?

    • #Call of Duty
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Designer por formação, jornalista por profissão e professor por ocasião. Ando Jogando é um blog com um conteúdo variado, através do qual exponho também minha visão sobre diversos aspectos dos games e da cultura que os cerca.

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